Buscando tanto na etimologia, como na construção gramatical grega, assim como na cultura judaica, Cranfield foi, com paciência e rigor, durante cinqüenta anos, construindo uma obra mestra. Esmiuçando cada expressão, cada versículo e cada palavra, o autor constrói uma visão panorâmica do Antigo e do Novo Testamento plena de sentido, seja para estudiosos da hermenêutica ou para simples adoradores que querem conhecer mais a Deus, na consciência de que isso é o que dá sentido à vida. A obra tem vários pontos que merecem destaque.
· Primeiramente, é rica toda a explanação sobre a ira de Deus, posto que é expressão de amor! Esta revelação, anterior aos eventos do Evangelho, se proclama na pregação, que é não só a revelação de um status de justiça perante Deus para os homens, como também a revelação de sua ira contra o pecado deles, contra o ataque à majestade de Deus. A injustiça é a violação da ordem justa de Deus – o que constitui a caracterização mais penetrante e esclarecedora da natureza essencial do pecado.
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Ao dizer que “os entregou” aos maus desejos, Paulo usa o mesmo verbo grego empregado na passagem que afirma Deus ter entregado seu filho à morte. Mas não é no sentido de “abandonar”, senão que “permitiu-lhes seguir seu próprio caminho a fim de que odiassem a futilidade de uma vida desviada da verdade de Deus”. “Um ato de julgamento e misericórdia”, o qual evidencia que “Deus continua preocupado com eles e ocupando-se deles”.
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Paulo volta ao argumento de que não são as obras o elemento fundamental para o juízo, mas a fé, independentemente da boa ou má obra. A boa obra é considerada como expressão de fé. Os cristãos conhecerão, quando comparecerem perante o seu Juiz, que a vida ficou muito aquém do perfeito cumprimento do requisito de Deus. No entanto, lembrarão que creram no perdão de Deus e que haviam começado, não importa quão fraca e intermitentemente, a voltar à obediência.
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Deus é justo constitui certeza fundamental de todo o pensar teológico. O centro de Romanos é que o Evangelho pregado por Paulo, que mostra “ato decisivo de Deus”, “eficaz e irreversível”. E que o dom da justiça é o perdão de alto custo, digno do Deus “justo, amoroso e fiel”.
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A redenção tem sua origem no seu eterno objetivo da graça. Um “beneficio que tem que ser acolhido, apropriado, pela fé”, já que “nenhum outro caminho para a apropriação do benefício está aberto aos homens, senão a fé só, e todo pensamento de eles o merecerem está excluído”. “Não seria o Deus justo em si mesmo, se deixasse de mostrar que é justo: é essencial ao seu ser o Deus justo, amoroso e misericordioso, que ele demonstre a sua justiça”. “A ira de Deus, ao contrário de toda cólera humana, é perfeitamente justa, e, portanto, isenta de todo vestígio de irracionalidade, capricho e caráter vingativo; e em segundo lugar, que no processo de afastar esta ira justa do homem é o próprio Deus quem toma a iniciativa”.
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Todo gloriar-se é excluído (verbo em aoristo que implica que a exclusão é realizada uma vez e para sempre). Toda justificação é pela fé, e não pelas obras. Deus não o é só dos judeus, uma vez que é o único Deus, logo o é de todos os homens. Isto não contradiz a Lei, antes concorda com ela. A Lei de Deus não é a lei das obras, senão uma intimação à fé. E é por essa Lei que fica excluído todo gloriar-se. O profundo conhecimento tanto do idioma grego antigo como da sua sintaxe se aliam ao conhecimento da vida cotidiana judaica, fazendo que até trechos freqüentemente obscuros fiquem evidentes. Sua erudição também nos possibilita desfrutar do estilo paulino, de suas metáforas, sempre didáticas, mas profundas.
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Deus fez com que seu plano de salvação dependesse, da parte do homem, não do cumprimento de sua Lei, mas unicamente da fé, a fim de que, da parte de Deus, pudesse estar de acordo com a graça”. A justificação não é “apenas decisão concernente a eles feita, mas envolve o dom do status justo para cada homem como pessoa individual”. Assim, a Lei aparece como instrumento de misericórdia.
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Os cristãos, além de serem convidados a reconhecer-se e levar a sério o pecado, também “estão sob a obrigação de parar de permitir que o pecado impere, sem oposição, sobre sua vida e revoltar-se em nome de seu legítimo governo, Deus, contra o domínio do usurpador do pecado”.
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A Lei foi substituída pela graça, tendo sua autoridade abolida, o que é confirmado em 8.1, assim não mais sendo o pecado senhor de nós porque outro Senhor tomou posse, passando de ser escravo do pecado a ser servo da obediência como única alternativa. “O homem que imagina ser livre porque não reconhece deus nenhum a não ser seu próprio ‘eu’ está enganado, pois o serviço do ‘eu’ a si próprio é a verdadeira essência da escravidão do pecado.” Paulo passa então a usar obediência como oposto de pecado. “Tendo sido libertados do pecado” do versículo 18 tem o “sentido de que foram transferidos da posse do pecado para posse de novo Senhor”. Paulo está “ciente do fato da pecaminosidade do cristão e da necessidade que ele tem de ser constantemente exortado a viver de acordo com a sua fé. Apesar disso, sustenta que, se alguém é absolutamente cristão, tem o Espírito de Cristo e caminha de acordo com o Espírito, se bem que vacilante e fracamente”.
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Os comentários expostos em relação ao capítulo 8 são de grande acuidade e contestam algumas interpretações tradicionais. Nenhum cristão escapa ao domínio do pecado nesta vida, e “até as melhores coisas que fazem são desfiguradas pela sua pecaminosidade; qualquer impressão de terem atingido a liberdade perfeita constitui apenas ilusão”. Entende o autor que Paulo afirma o Filho de Deus ter assumido “a mesmíssima natureza humana decaída”, mas ela “nunca foi a totalidade dele”. Nossa fé sempre está misturada à descrença, e nossa obediência sempre é imperfeita e incompleta. O cumprimento da exigência da Lei só pode ser realizado não segundo a carne, mas segundo o Espírito, que nos capacita muitas vezes para que não seja “nosso egoísmo insaciável”, ”que é a essência da sua degradação”, que comande o nosso caminhar.
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Paulo confronta o espírito de escravidão, e seus medos, com o Espírito de adoção. Cranfield esclarece que se deve rejeitar o conceito de um comentarista que diz que o Espírito antecipa nossa adoção futura. Essa filiação não é algo que possamos nos conferir, é preciso que nos seja concedida por Deus. Não há herdeiros que se sucedam, mas refere-se à participação não apenas nas bênçãos de Deus, mas naquilo que é próprio dele: a glória – sendo nossa certeza da esperança baseada no desígnio eterno de Deus.
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Cranfield lembra que a eleição, mencionando Karl Barth, “se quiser ser fiel à Escritura, não pode começar de modo abstrato, quer a partir do conceito do Deus que elege, quer a partir do conceito de homem eleito, mas deve começar concretamente pelo reconhecimento de Jesus Cristo, tanto o Deus que elege como o homem eleito”. É com a eleição da comunidade que Paulo se preocupa em Romanos 9 a 11. O autor diz que Deus faz distinções “entre níveis ou formas diferentes de eleição, não entre eleição e não eleição”, quer dizer “entre os que não se encontram em relacionamento positivo com a realização do plano de Deus”, o que “é traço característico da história bíblica”. Cranfield entende que a discriminação entre Isaque e Ismael e entre Jacó e Esaú, assim como entre os judeus que acreditam em Jesus e os que o rejeitam, é uma “afirmação não da liberdade da vontade não qualificada de Deus, mas da liberdade da misericórdia de Deus”.
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“Ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem quer” corresponde a modos diferentes de Deus servir-se para suas finalidades. Mas esses modos sempre dependem de Deus, da sua vontade misericordiosa, como é evidente ao falar da longanimidade com que suporta os vasos de ira com o objetivo de manifestar seu poder e sua glória. Cranfield esclarece que Paulo não sugere que os vasos de ira devam permanecer como tais. A ira de Deus também permite que os vasos de misericórdia percebam que o são pela glória da misericórdia ilimitada de Deus, e não por terem mérito algum. É evidente que a inclusão dos gentios demonstra que nem Ismael, Esaú, o faraó ou os judeus incrédulos estão fora da misericórdia de Deus, baseando-se na promessa de Oséias “como prova da finalidade de Deus de incluir os gentios na sua salvação”.
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Fala da “pertinaz determinação de estabelecer a própria justiça com base nas suas obras, que resulta na recusa a aceitar humildemente o dom oferecido por Deus como dádiva imerecida da sua misericórdia”. Por não ter entendido que Jesus era a meta da Lei, ficaram sem desculpa. Paulo é a prova de que Deus não rejeitou seu povo.
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Nos versículos 11:26b e 27, se faz evidente que a libertação que esse Libertador realizará consiste em expulsar a impiedade de Israel. Isto contrasta com a expectativa judaica do Messias político.
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A obediência do cristão é motivada pela gratidão pela bondade de Deus e “todo esforço moral verdadeiramente cristão é teocêntrico”, e não “anseio humanístico” ou esperança ilusória do legalista em pôr a Deus como obrigação para si”. “A oferta, constantemente repetida, de nós mesmos em todo nosso viver concreto como sacrifício para Deus, é a verdadeira ação de adorar.”
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O cristão deve reconhecer que, até certo ponto, mesmo que dolorosamente, conforma sua vida aos valores e modos do mundo. Ao mesmo tempo, deve submeter-se à direção do Espírito, permitindo ser constantemente remodelado para manifestar, aqui e agora, sua imagem transformada no Cristo.
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“O Evangelho revelou a importância do amor ao próximo, pois nele está o próprio Filho, e por isso é preciso honrá-lo mais de que a mim mesmo. Isto não tem nada a ver com fingimento.”
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Versículo 13.1: “O que Paulo prescreve não é obediência acrítica, mas que fomos postos sob a autoridade por Deus”, enquanto não entre em conflito com as leis de Deus.
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Versículos 15.1-3: “Sob o efeito do Evangelho, os que, por causa da liberdade interior que lhes foi dada, têm o dever iniludível de carregar a incapacidade de seus irmãos que precisam viver sem aquela liberdade interior”. Isto “será prova da realidade da sua fé”.
Existe pouco material esmiuçando este texto básico da teologia da graça. Desfrutemos.
Carlota Lombardi é arquiteta formada pela Universidad Nacional de Buenos Aires e membro da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo.
(Extraído do website teologiabrasileira.com.br) |