CRISES E PERDAS NA FAMÍLIA - Consolando os que Sofrem
Jorge E. Maldonado

O texto se propõe a ser um manual conciso e objetivo para o acompanhamento pastoral efetivo por parte de conselheiros cristãos e facilitadores pastorais. E cumpre muito bem o seu propósito de fornecer informações e ferramentas para tanto. É prático, sem pecar na falta de fundamentação conceitual. Destaco alguns destes aspectos.  

O autor não inicia o livro pela fundamentação teológica de suas premissas, mas elas são colocadas de maneira clara, ainda que rápida. Depois de definir o que são crises, classifica-las e apontar os tipos de intervenção, ele dedica um capítulo inteiro à intervenção pastoral. E para tanto fundamenta teologicamente esta intervenção, vinculando-a à igreja, que tem o “ministério da consolação”, decorrente de um Deus que se revela como “Deus amoroso que se comove e se identifica com o que sofre, e está disposto a ajudá-lo” (pp. 58, 59).

A perspectiva da obra é pastoral e tem como foco a comunidade de fé, que leva o autor a afirmar que “a igreja é uma comunidade idônea para oferecer ajuda solidária em situações de crise” (p. 57). A comunidade é representada pelo que chama de “conselheiros ou facilitadores pastorais, que não são necessariamente terapeutas ou especialistas” (p. 12).

Embora enfatize adequadamente o lugar da igreja como um todo, não reduzindo a tarefa do aconselhamento aos clérigos, guarda a estes um lugar especial. “Na história da humanidade, muito antes que surgissem as profissões de ajuda, já havia rabinos, pastores, sacerdotes e leigos que com sabedoria e sensibilidade foram os assessores ‘naturais’ de pessoas em crise” (p. 57). E o autor faz uma afirmação retumbante do lugar da vocação pastoral no manejo das crises das pessoas e famílias, ao citar Edwin Firedman: “(...) nós, os clérigos, somos os membros da sociedade que estamos em melhor posição de fomentar este desafio existencial pela sanidade, pela entrada única e especial que temos nas famílias como sistemas, devido à nossa posição dentro da comunidade. Nós, os pastores, conhecemos os processos multigeracionais de nossos fiéis, participamos nos rituais de transição mais importantes das famílias, mantemos um contato prolongado com os membros de nossas congregações e, além disso, somos seus líderes.”

Estaria o autor descartando o lugar dos terapeutas profissionais? A resposta é não. Ele dá o devido lugar às profissões de ajuda, à parte da atividade pastoral, quando fala da “contribuição dos experts”, que têm acumulado e sistematizado muitos conhecimentos acerca das perdas e do processo e da elaboração do luto. Além disso, ele guarda aos conselheiros cristãos e assessores pastorais a tarefa do apoio nas crises e sempre chama a atenção de conselheiros para os casos que precisam ser encaminhados a profissionais com competência para crises mal resolvidas (pp. 70-72) ou mesmo doenças psiquiátricas  (pp. 45-46).

O lugar que o autor dá à família é amplo e intencional. As pessoas atravessando suas crises são o foco e a comunidade cristã é, ao mesmo tempo, espaço e instrumento de abordagem, mas o autor deixa claro que seu marco teórico é sistêmico e por isso toma a família como unidade de abordagem na relação de ajuda. (p. 30).

Neste contexto familiar, convém observar o espaço que o autor dá aos dois segmentos extremos da família: as crianças e os idosos. A intervenção de ajuda à criança, tanto do ponto de vista de diagnosticar a crise vivenciada pela criança como a forma de ajudá-la ocupam várias páginas (pp. 64-70). Ao definir os tipos de crises, a terceira idade ocupa lugar destacado nas “crises de desvalia”. Cita Michel Albert: “As crises não são agradáveis e as crises familiares menos ainda, mas as crises da terceira idade são um inferno”.

Por fim convém lidar com uma questão: pode um texto com a perspectiva da pastoral cristã, de um autor evangélico ortodoxo, contemplar ajuda à sociedade? O ponto de vista do autor é muito interessante. “O conselheiro ou facilitador pastoral se envolve sempre em assuntos de fé.” (p. 11). E  preconiza: “nos contextos multiculturais, multiétnicos e de múltiplas expressões de fé nos quais vivemos, as questões de significado transcendental devem ser tratadas com delicadeza e respeito.” (p. 11). O conselheiro não precisa esconder sua fé, pois no entender do autor, “o indivíduo em crise está pedindo que a dimensão  transcendente seja incorporada no entendimento e no manejo de sua aflição”. (p. 60). E faz uma observação digna de registro: “o homem e a mulher pós-modernos sabem que, além da voz autorizada do médico e do psicólogo, necessitam escutar a voz de alguém que lhes ajude a olhar sua dor e sua esperança desde a dimensão espiritual; que não só avalie sua crise, mas que também os coloque em contato com os recursos naturais e sobrenaturais da graça”. (p 60).

Algumas Implicações para o Ministério de Pastores

Tomando-se em conta os comentários que já fiz acima, destaco que são aspectos muito importantes a considerar e integrar em minha atividade pastoral o que segue.

a) A compreensão de que a tarefa pastoral incluí o aconselhamento e o assessoramento pastoral, na ajuda das pessoas da comunidade cristã ou não, diante de suas diferentes crises existenciais. Além desta obra, em Howard Clinebell (Aconselhamento Pastoral, Sinodal e Paulinas) encontramos excelentes contribuições com este propósito. Há muito a afazer além de simplesmente encaminhar a um profissional da área de terapia.

b) O pastoreio não se faz só pela pessoa do pastor, mas pela comunidade da fé que exerce o ministério da consolação, o que implica em treinamento dos leigos para a tarefa do ministério de apoio nas crises; eis aí outra tarefa pastoral, de maior alcance.

c) Há muito espaço para a comunidade cristã atuar de forma preventiva em relação a muitas crises que as pessoas haverão de enfrentar e que lhes são inescapáveis, como aquelas classificadas como crises de desenvolvimento e crises estruturais.

d) A Igreja tem um grande potencial para ajudar as pessoas propensas a enfrentar crises. Como destaca o autor, por “sua capacidade convocatória e de organização”, à luz de sua história de promoção de grupos de oração e de ajuda mútua (p. 86). Assim, pode a Igreja criar grupos específicos para ajudas específicas em tantas áreas onde as pessoas enfrentam crises, estão processando lutos, procuram adaptar-se a novos sistemas ou situações familiares.

e) Por fim, cabem dois desafios: atender a necessidade pastoral de crianças e idosos. A obra de Jorge E. Maldonado é rica nestes aspectos, oferecendo elementos suficientes para fazer pensar sobre a necessidade de alcançarmos crianças e idosos em nossa ação pastoral. E isso no aspecto específico do apoio nas crises.

por Wilson Costa


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