Autópsia de Uma Fé
Desde a década de 60 a Igreja Evangélica Brasileira viu nascer dentro de si um movimento que tem sido chamado de novo pentecostalismo. Como qualquer outro fenômeno humano, este também é um feixe complexo no qual se entrecruzam, além da dimensão religiosa, as sociais, políticas, psíquicas e econômicas.
Apesar desta complexidade, é necessário que tentemos descrevê-lo, ainda que parcialmente.
O “apóstolo” Estevam Hernandes e sua esposa, a “bispa” Sônia, líderes da Igreja Renascer, são, em muitos aspectos, uma síntese deste movimento. Ressaltese enfaticamente que nem todas as igrejas e pastores neopentecostais podem ser medidos pela maneira como este casal tem vivido e pregado sua fé. Todavia, não se pode negar que o “apóstolo” e a “bispa” trazem em sua trajetória a marca que tem caracterizado boa parte do mundo neopentecostal: líderes com um enorme carisma, dissociado de caráter e alimentado por uma teologia do consumo e da prosperidade.
O carisma de atrair multidões e saber lidar com elas faz do líder de qualquer organização uma pessoa muito poderosa, e na igreja não é diferente! Isto porque um líder com forte carisma é capaz de seduzir seguidores a ultrapassar até mesmo os limites do razoável, pois o senso crítico de um grupo de pessoas diminui na proporção exata da incidência do carisma do líder sobre ele. O caráter, por sua vez, é a fronteira do carisma. É através dele que se resiste às armadilhas do carisma. Então, quando um se desliga do outro, o líder perde o seu crítico interior, destrói seu superego, ficando ao sabor do ego inflado pelos resultados advindos de sua liderança carismática.
Esta equação daninha de carisma sem caráter somente se sustenta no contexto da fé por que ganha contornos divinos. É a chamada teologia da prosperidade, que justifica diante dos fiéis os abusos financeiros de um estilo de vida socialmente nababesco vivido por muitos deles. Prega-se dentro desta visão teológica que Deus deseja que os seus filhos prosperem, por isso, eles devem ofertar ao máximo, pois fazendo assim serão recompensados. Ou no limite de suas angústias ou puramente interessadas numa barganha sobrenatural na qual a bênção de Deus é comprada mediante o dízimo, pessoas vão embarcando nesta que é a curto, médio e longo prazos, uma canoa teologicamente furada. Obviamente que não para os líderes carismáticos pregadores de tal teologia que, diga-se de passagem, são os únicos realmente a prosperar, numa medida de milhões de reais.
A rigor, o quadro até aqui descrito não é novo, sendo já conhecido e tratado pela grande mídia. A novidade do presente momento fica por conta das denúncias do Ministério Público paulista, que qualificam uma igreja como organização criminosa e responsabilizam seus líderes por ações ilícitas. Estas denúncias em si mesmas, independentemente do seu desfecho, devem constituir uma séria advertência a todos de que a falta de caráter no âmbito da fé poderá trazer sérias implicações judiciais para aqueles que ultrapassem os limites legais. Sendo assim, a cadeia não pode ser encarada nem como punição divina e nem uma armação do diabo (como têm insinuado os líderes da Igreja Renascer), mas sim uma conseqüência natural que deve se abater sobre todos os infratores da lei.
Em tudo isso, é curioso notar que um outro apóstolo (Tiago, este sim sem aspas!) escreve na Bíblia que a fé sem obras é morta. O que ele não disse, mas implícito está, é que uma fé morre não apenas pela ausência de obras, mas pela qualidade delas e dos meios usados para produzi-las. Portanto, uma fé sem ética está morta apesar dos muitos resultados. E, uma vez morta, só nos resta fazer sua autópsia e torcer pelo seu breve sepultamento, para então renascer líderes que, com integridade, cumpram sua missão amando a Deus e a este povo tão sofrido!
EDUARDO ROSA PEDREIRA, é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, professor de Ética Corporativa da FGV e autor do livro Inveja e Contentamento pela Editora Mundo Cristão Outros Artigos
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