Disciplinas Espirituais: Práticas Funcionais ou Existenciais

Se algum crente quiser nos gerar culpa, não precisará de muito. Basta que pergunte: Pastor, como vai o seu tempo com a palavra e a oração? Por incrível que pareça, para este crente, as chances dele atingir o objetivo ao fazer esta pergunta são grandes. Sem medo de errar, podemos afirmar que um dos maiores problemas enfrentados por nós, pastores, diz respeito à disciplina na vida de meditação na Palavra e de contemplação na oração.

Esta culpa se intensifica quando a pergunta é feita numa conferência para pastores por um outro pastor do tipo ministro bem sucedido, grande pregador e líder de uma grande igreja. Neste caso, a pergunta, rapidamente, toma conotação de resposta para aquele que a escuta. “É por isso que minha igreja não cresce. É por isso que estou enfrentando aquele problema. É por isso que vou ter que mudar de igreja mais uma vez.”

Neste caso, a prática da meditação na palavra e da contemplação em oração passam a ser tratadas como ferramentas funcionais e não como exercícios existenciais. Enquanto vistos como ferramentas funcionais, estas práticas são importantes para demonstração da performance espiritual e para a conquista de créditos com Deus. Diferentemente, quando vistas como exercícios existenciais, elas “simplesmente” moldam e depuram a vida a ser vivida.

Há algumas manhãs atrás, quando meditava e orava sobre isso, uma pergunta veio à minha mente: o que conheço de Deus tem moldado minha vida e ministério ou é o meu ministério e a minha agenda pessoal que tem moldado minha visão de Deus? Às vezes, nossas agendas pessoais e prioridades ministeriais passam a moldar o que pensamos e falamos sobre Deus, quando, na verdade, é o caráter que nos é revelado de Deus que deveria moldar nossos valores, prioridades e discurso.

Por exemplo, quando medito na palavra e contemplo a presença de Deus em oração, meu coração pode ser convencido de quão fiel é Deus para com aqueles que o buscam e o servem. Deixar-me convencer pelo caráter fiel de Deus altera a forma ansiosa com que vinha tratando alguns problemas relacionados à igreja, como também a maneira ativista como vinha lidando com a vida, pensando em consolidar minha segurança futura como se tudo dependesse de mim.

Outro exemplo, ao ler a palavra e dedicar-me em oração, sou, em determinado momento, surpreendido pelo Deus que é amor. Ele não apenas ama, mas Ele é amor. Ao meditar nessa faceta do caráter de Deus, sou levado a questionar-me acerca de quanto minha vida e ministério revelam o caráter do Deus a quem eu sirvo. A forma como pastoreio manifesta o caráter do Deus com quem me relaciono?

Quando vista na perspectiva correta, nossa relação com a palavra e a oração deixa de ser um meio para aferirmos nossa performance espiritual e, consequentemente, uma forma para obtermos créditos diante de Deus. A genuína relação com a palavra e a oração oferece-nos um espaço no qual, tanto o nosso caráter, como o de Deus, são revelados. Por um lado, diante do desnudar do que somos, prostramo-nos em terra, por outro, diante da revelação de quem Deus é, somos graciosamente acolhidos e convidados à transformação. Assim, não apenas quem somos, mas também a nossa atividade de pastoreio é moldada.


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